terça-feira, 10 de dezembro de 2013

SONHA TORRES VEDRAS VIVE


Foi realmente um fim de semana fora do vulgar.

Este fim de semana fabuloso brotou da oportunidade de convidarmos a Lara Rodrigues, mais especificamente o movimento WOOL, para promover uma acção de arte urbana colaborativa em Torres Vedras.




Já Admiradores do trabalho da WOOL e sobretudo das ações com um cariz comunitário e social, como a Lata 65, nasceu a COOPER. ARTE. Fomos contagiados pelo talento e pela faceta humana da Lara, Pedro, Elisabet e o pequeno Daniel :) . De um par de conversas e e-mails trocados lá fomos fintando as burocracias incontornáveis para acções deste tipo, mantendo a persistência e resiliência até ao dia D. Agradecemos à REFER e Câmara Municipal pelo incentivo e autorizações. 

Como somos um grupo de profissionais independentes e empresas que se encontram a iniciar a sua atividade, ou mesmo algumas que persistem e querem crescer, quisemos lançar o debate sobre a importância das paixões, sonhos de criança, vocações, experiências e aspirações profissionais. Quisemos fazê-lo de forma diferente e com a possibilidade de fazê-lo com a comunidade, com pessoas resilientes mas também com importantes desafios sociais, onde a troca de experiências e a aprendizagem colaborativa pudessem estar bem presente e fizessem bem a todos!



Convidámos assim um grupo de crianças e jovens do Centro de Intervenção Comunitária de Boavista de Olheiros e um grupo de seniores de diferentes freguesias do concelho, que fazem parte do programa Clube Sénior, promovido pela Câmara Municipal de Torres Vedras.

Chegado o dia D, (30 de Novembro) ninguém sabia muito bem para o que vinha, apenas que o mote era a arte urbana, isto é pintar o muro devoluto com latas irreverentes para fazer qualquer coisa.

Uns mais envergonhados do que outros, entraram pela Cooperativa Cowork adentro, esgrimindo o frio e inércia bem típica de fim de semana, mostrando desde logo que se tratavam de pessoas extraordinárias. Todos eles com olhares em estreia vieram com os seus petiscos caseiros, pensando com certeza que a fome poderia apertar no meio de tanta pintura :).



Ressaltou desde logo o enorme contraste de gerações, onde o mais velho devia rondar talvez os 80 anos e o mais novo talvez os 8 anos. Enquanto esperavam pelo início da atividade, uns jogavam ping-pong, fizeram puzzles e outros juntaram-se à volta do calorífico como se de uma pequena fogueira se tratasse. Todos esperavam por aquilo que ninguém sabia bem o que era, mas ali estavam com uma animação e calhandrice saudável.

No início das formalidades, apresentação dos fantásticos projetos da Wool, houve esgares de estranheza, expressões de admiração dos diferentes trabalhos de artistas urbanos nacionais e internacionais.


No debate colaborativo, surgiram histórias de trabalho, sonhos da pequenada do futuro como adultos e desejo dos mais velhos em ter novos desejos que os aproximem cada vez mais daquilo que gostam desde sempre e que nem sempre tiveram a oportunidade de experimentar.

“Eu quero ser bombeiro quando crescer”

“E eu gostava de ainda poder ser cozinheira, à séria!”  :)

(Tocou-me a partilha de conhecimento, o fato de nos meus 32 anos confidenciar o meu desejo de aprender a fazer pão num verdadeiro forno de lenha, e mais do que um Google avançado tive proposta de ensino doméstico, com direito a receita manuscrita com os truques de quem realmente sabe)


Todos estes desejos foram a seguir lançados para a folha branca, na exploração das suas ideias gráficas, onde apenas uma regra existia: “Não vale dizer que não sei desenhar ou que não tenho jeito para isto!”. Para alguns foi mais difícil do que outros, mas cada um a seu ritmo, com diferentes esboços, chegaram a desenhos lindos.

Aviões, Sereias, Cabras, Tractores, Planetas, Carro dos Bombeiros, Flores e mais Flores, Robots, Casas de Família, Corações e mais Corações. Tanta diversidade quantas pessoas…

Como reais artistas que são, o grande grupo passou para a exploração de alguns desenhos, para o recorte e realização de moldes, abordando a técnica do stencil.


Todos fervilhavam de impaciência para saltar para a rua e colocar a “mão na massa”! Neste primeiro dia houve ainda tempo de brincar com toda a paleta de arco-íris. Velhos e novos, com máscaras e luvas em punho brincaram como se não houvesse manhã. Mensagens de amor, mensagens políticas, jogos do galo, rubricas e assinaturas. E todos utilizaram os seus preciosos stencils em modo repeat. Tudo foi mote para brincar com as cores e latas. Apesar da preocupação com este caos inicial houve real divertimento e colaboração.



Um dos responsáveis por existir esta brincadeira foi a loja CARSPORTIF, que patrocinou as latas coloridas. Uma loja de referência em Torres Vedras, já habituada a incentivar a arte e o artistas urbanos, em terras Torreenses. Um grande obrigado por serem parceiros, e um bem haja à disponibilidade de serem promotores  de  momentos que valem mesmo a pena !! 




Para quem não sabia e passava, opinava críticas de desconhecimento, ou ficavam mesmo parados a olhar para a contagiante descontracção e sorriso na boca de todos, velhos e novos.

No dia 2 D, foi fácil o encontro de novo. As vergonhas ficaram em casa e a arte de todos funcionou como um elo e um acelerador das relações :).



Na busca da mensagem a deixar no muro, surgiram desejos de paz no mundo, o fim da guerra e desemprego, desejos globais, etc… que depois de enorme brainstorming, se resumiram aos desejos para a nossa comunidade. “Valorizem-se as aldeias”, dizia alguém. Surge Torres Vedras como foco, não a cidade mas sim o concelho. E em conjunto surge a mensagem sincera de SONHA TORRES VEDRAS VIVE.



Com satisfação todos recortaram as letras fielmente desenhadas pelos profissionais. No muro, com as latas adormecidas, foi um trabalho mais árduo de precisão que seguiu, com rolos e pincéis bem carregados de branco celestial.

Com casacos, cabelos, dedos e narizes (quase) pintados, ninguém arredou pé até a obra ficar terminada.



Tirámos uma fotografia de grupo em êxtase, como se tivéssemos mudado o mundo :)!

Agora aquele muro nunca mais será o mesmo e nós também não.



Tenho o prazer de todos os dias que lá passo, encontrar vestígios do meu gato. Passo os olhos por todas as pinturas para lá chegar. Só vejo a cauda, mas não me importo porque todos que participaram têm um bocadinho lá, e há realmente espaço para todos!

Esta é o presente de Natal de alguns Torrienses para a cidade de Torres.



Rita Pinheiro, Cooperativa Cowork